15/04/2009

ENTREVISTA DA CANDIDATA DO PS À CÂMARA MUNICIPAL DE SINTRA

Ana Gomes, até agora a única candidata à presidência da câmara de Sintra, diz ser uma radical no combate à corrupção, ao desinteresse e à desonestidade. Pelos anos que leva na política, onde já passou por cargos como embaixadora de Portugal na Indonésia, e pelo cargo que ocupa actualmente como eurodeputada, a socialista diz não ser uma sectária e mostra-se disponível para ouvir as vozes dos diferentes partidos políticos empenhados em contribuir para melhorar as condições de vida de todos os sintrenses, conferindo ao concelho o seu lugar em Portugal e na Europa.Tem já uma longa carreira na vida política passando por cargos de diplomata e encontrando-se actualmente a desempenhar o cargo de eurodeputada.

Quais as suas ligações a Sintra?

Eu sou lisboeta mas vivi toda a minha vida entre este triângulo Lisboa-Sintra-Cascais. Fiz os dois últimos anos de liceu em Cascais, mas sempre gostei imenso de Sintra. Cheguei a passar umas férias, aos 13 anos, num lar em São Pedro de Sintra, que era para jovens que tinham boas notas no liceu. Isso marcou-me muito e depois mais tarde tive vários amigos a morar em Sintra, e destaco o Ernesto Melo Antunes, que foi quem me incutiu a ideia de vir viver também para Sintra. Um dia descobrimos umas casas que precisavam de recuperação e é nessas casas onde vivo actualmente, perto do Cabo da Roca. Hoje faço a minha vida toda em Sintra. Venho às compras, os cafés e os restaurantes onde vou são aqui em Sintra, em Almoçageme, em Colares, na praia das Maçãs. Gosto imenso de Sintra e acho que é um concelho extraordinário, mas que tem um potencial que está por realizar.Como responde a quem a acusa de ter um discurso radical?Eu sou radical contra a desonestidade. Sou radical contra a corrupção. Sou radical contra o desinteresse. Sou radical no empenho pela defesa dos interesses dos residentes e dos cidadãos de Sintra. Se isso é ser radical, sou radical e não me arrependo. Sou uma pessoa que gosta de ouvir todos, demonstrei, suponho eu, pelos meus anos já de vida politica que não sou sectária. Sou capaz de trabalhar com pessoas de todos os partidos políticos e trabalho assim no parlamento europeu.

Que motivações tem para assumir, em caso de vitória, a presidência do município?

Percebo que há problemas graves e que precisam de uma solução que passa pela governação de Sintra que, obviamente, depende muito da câmara municipal e da sua articulação com as juntas de freguesia. Há muito trabalho a fazer e eu que ando pelo mundo, quer antes pela minha profissão de diplomata quer agora como deputada ao parlamento europeu, a procurar ajudar a resolver os problemas de muitas outras pessoas em diferentes partes do mundo, pensei porque não hei-de dedicar-me a procurar resolver os problemas do concelho onde vivo e de que gosto. É nesse sentido que aceitei candidatar-me pelo PS à câmara de Sintra e naturalmente que o faço com humildade de quem vai aproveitar os próximos meses para conhecer os problemas de Sintra, que é uma realidade muito diversa.

Que problemas é que detectou?

Há a zona rural com cerca de 80 mil pessoas, que tem as praias, que tem zonas com grande potencial turístico, com grande património arquitectónico e paisagístico, que importa preservar. Mas há também as zonas de Sintra que são as mais populosas, onde os mais graves problemas se põem. Problemas de inserção social, de educação, questões de saúde, de acessibilidade. É dessa realidade diversa que me quero inteirar e tenho a sorte de ter comigo bons quadros do PS, que estão muito envolvidos nos trabalhos nas juntas de freguesia e na própria câmara e que me podem ajudar a conhecer a realidade, a fazer propostas, a ouvir os cidadãos de Sintra, e esse é um aspecto muito importante pois estou aberta a ouvir toda a gente que queira dar-me as suas opiniões e recomendações, e propor aos sintrenses um programa que lhes incuta a confiança de que efectivamente se pode resolver os problemas mais graves que o concelho enfrenta.

A questão da segurança é uma das preocupações da sua lista?

Eu penso que um dos problemas mais prementes que sentem todos os sintrenses neste momento, e em especial das zonas mais populosas, é a segurança. O problema da segurança obviamente que não está desligado dos problemas de inserção social. Nas zonas mais populosas do concelho como Agualva-Cacém, Algueirão-Mem Martins, em Queluz, há problemas de inserção social, há bairros que são autênticos guetos onde, por certo, os índices de desemprego, em particular dos jovens, são elevados e onde o desespero e a tendência para a marginalidade pode ser alta se de facto não forem tomadas medidas de inserção social. A questão da insegurança implica obviamente medidas de intervenção securitárias, nos quais a câmara deve ter um papel chave de coordenação das diferentes forças de segurança que estão aqui envolvidas. Essas forças têm que ser devidamente coordenadas e o papel da câmara é essencial nesse processo, da mesma maneira que também é essencial na reivindicação junto do Governo dos meios que são necessários para fazer face aos problemas.

Mas este problema da segurança pode ser combatido como?

Não é só uma solução securitária, passa tudo por soluções de inserção social, de integração social para os jovens, de apoio social para os idosos, de integração social para os imigrantes. Temos bairros com alta percentagem de população imigrante que hoje está a sofrer bastante o problema do desemprego e que obviamente precisa de apoio específico que não se pode resumir apenas ao pagamento de rendimentos mínimos ou subsídios de desemprego, mas que têm que ter verdadeiras estruturas de inserção na vida do concelho, na resolução dos seus próprios problemas a nível das comunidades onde estão inseridos e em que a câmara tem que ter um papel decisivo de proximidade. Portanto essa é sem duvida uma das prioridades.

Esta questão da segurança é o reflexo de vários outros problemas que assolam o concelho? Que avaliação faz da educação em Sintra?

Tudo isso está obviamente ligado aos problemas da educação. Sintra é o segundo concelho mais populoso do país, é também o que tem a população estudantil mais jovem e maior do país, e no entanto há claramente um deficit de estruturas escolares que propiciam as condições adequadas para o aproveitamento desses jovens. Eu vi recentemente números sobre a frequência nas salas de aulas no ensino básico e secundário aqui no concelho de Sintra que me deixaram muito preocupada. Vou tentar verificar se isso de facto corresponde à verdade, mas salas de aulas com 50 alunos são ingeríreis. Eu quando era jovem estudante andei em salas de aula que tinham o máximo de 30 alunos. Não posso entender que num concelho que teve esta explosão demográfica que se tenha descurado o aspecto das infra-estruturas e todos os equipamentos escolares de forma a integrar devidamente esses jovens não só em actividades escolares mas em outras actividades extra-escolares que serão essenciais exactamente para zelar pela sua inserção social. Tudo isto tem obviamente ligação com os problemas de insegurança.

Que avaliação é que faz dos dois mandatos da coligação Mais Sintra?

Estou numa fase de recolher informações e de poder fazer uma avaliação objectiva. Devo dizer que do ponto vista subjectivo tenho até a maior estima e consideração pelo doutor Fernando Seara. Não sabemos ainda se vai de facto ser o candidato do PSD, eu presumo que sim e terei o maior gosto em concorrer tendo-o como opositor. É uma pessoa que merece toda a consideração pessoal mas sem dúvida que isso não impede que eu faça uma avaliação diferente e negativa do que foi o seu trabalho à frente da câmara de Sintra nos últimos anos. Como digo estou ainda a recolher dados porque tenho a percepção de que há ainda muitas coisas que eu ainda não sei, mas como sintrense sinto que o concelho está estagnado. Sinto que houve este crescimento demográfico explosivo sem que houvesse o devido acompanhamento das estruturas de integração social, de educação, no campo da saúde que é outro problema muito grave.

Que avaliação faz à questão da saúde no concelho de Sintra?

Sabemos que localidades mais populosas do concelho estão muito mal servidas em termos de apoio de saúde às famílias. Belas, Agualva-Cacém, Algueirão-Mem Martins, a própria vila de Sintra e Queluz têm péssimos centros de saúde, o que não é aceitável, sobretudo quando estamos a falar de zonas que conheceram um grande crescimento em número de residentes. Há outros problemas na área da saúde, o próprio hospital, que tanto que eu percebo, há séculos que se fala mas nada avançou, entre outros aspectos, por falta de disponibilização da câmara de terrenos para a sua construção.

E em termos de acessibilidades?

As acessibilidades, não tanto da ligação de Sintra a e das diferentes freguesias de Sintra ao exterior, visto que elas ficarão resolvidas em boa parte com o alargamento do IC19 e com o IC30 que está em construção. Existem sobretudo problemas de mobilidade interna, de uma rede de transportes públicos eficiente para servir todos os moradores deste concelho que é tão grande e que exige, naturalmente, que haja uma rede ao serviço dos moradores para que as pessoas se possam deslocar sem ter que fazer uso do seu transporte pessoal, que em muitos casos as pessoas não podem suportar.

E do funcionamento interno da câmara municipal?

Há problemas também de lentidão no processamento das licenças na câmara que eu penso que são inaceitáveis. Há todo um trabalho de reestruturação inclusivamente dos serviços da câmara de forma a agilizar os processos de licenciamento, de funcionamento da câmara no que diz respeito ao seu relacionamento com os cidadãos que precisa de ser revisto e drasticamente melhorado e que eu penso que nos últimos anos só fez foi degradar-se.

O que é que uma vitória do PS traria ao concelho?

Uma lista do PS encabeçada por mim vai trazer aos sintrenses a disponibilidade para os ouvir e para os envolver nas decisões mais importantes relacionadas com o seu concelho. Como exemplo dou o Plano Director Municipal que está previsto que seja revisto neste ano de 2009. O plano inicial tem 10 anos e hoje por exemplo as questões da eficiência energética das habitações, dos edifícios públicos, dos transportes públicos são questões que estão na primeira linha das prioridades em qualquer município, e que não eram uma preocupação há dez anos atrás. Este Plano Director Municipal precisa de ser revisto também à luz deste tipo de preocupações e de outras como a requalificação urbana de que Sintra absolutamente precisa. Penso que as questões são sobretudo de requalificação urbana, exactamente nessa perspectiva de ir ao encontro da solução dos problemas de ordem social. Portanto uma das coisas em que o PS vai sem duvida empenhar-se é em ouvir os cidadãos e envolve-los neste processo de rever linhas directivas de elaborar uma estratégia de desenvolvimento, de viver bem neste concelho de Sintra.

Mas, para já, o que é que pode prometer aos sintrenses?

Vamos procurar fazer uma avaliação objectiva dos problemas do concelho e apresentar soluções que preservem o que Sintra tem de extraordinário e que precisa de ser preservado, como o património arquitectónico e paisagístico, mas que ao mesmo tempo se criem condições de vida melhores para os seus cidadãos e residentes, que vivem em zonas que precisam de intervenção pública e de requalificação urbanística. Vamos procurar oferecer soluções depois de ouvir os cidadãos que tenham em atenção o que são hoje as recomendações de desenvolvimento a nível europeu e que resultam duma experiência global no que toca a politicas verdes para habitação e para a própria construção da habitação. De políticas de eficiência energética para os transportes, para os edifícios públicos, de políticas de eficiência no uso da água que é um bem escasso, e que Sintra possa fazer um uso que possa ser exemplar para o resto do país. Politicas de inserção social, de integração das comunidades imigrantes, de políticas de ir ao encontro da solução dos problemas dos grupos mais vulneráveis – as crianças e os idosos. Sem dúvida que no nosso concelho há muitos idosos e que precisam de intervenções de apoio diferentes consoante vivam nas zonas rurais ou por exemplo nas comunidades urbanas. Uma politica cultural que justamente potencie a extraordinária riqueza de Sintra do ponto de vista do património, da paisagem, que dê dinâmica aos jovens, que os ajude a expressar, com formas construtivas, toda a sua criatividade e energia.O concelho de Sintra é um dos maiores em Portugal em termos de população e de espaço, com áreas diferentes em termos de população e de construção.

O crescimento contínuo do concelho é um problema?

Há uma dicotomia entre a Sintra rural onde abundam casas de gente com capacidade financeira e a Sintra das zonas mais populosas, de alta concentração urbana onde há também a mais alta concentração de problemas e muitos deles têm a ver com a falta de qualidade da urbanização. É preciso impedir guetos e sei que há bairros no concelho de Sintra que até foram criados para resolver o problema da habitação, mas são bairros sociais que são autênticos guetos. Isso não é possível. É preciso encontrar soluções urbanísticas que integrem devidamente esses bairros, que lhes dêem qualidade de vida, que tornem os seus moradores orgulhosos de lá viver e capazes deles próprios darem o contributo que cada um deve dar para manter as suas zonas de habitação com níveis de limpeza e de qualidade de vida mínimas. Há problemas de acessibilidades que estão relacionados com estes problemas de urbanismo. Há problemas de urbanismo que têm a ver com, tanto quanto sei, a inexistência de uma política de terrenos por parte da câmara que inclusivamente tolhe a capacidade da autarquia de dar apoio a desenvolvimento de áreas industriais do concelho, onde naturalmente predomina a pequena e média empresa, mas que precisariam de agilização de processos como a facilitação de espaços para potenciar o empreendedorismo e o emprego. Esta é uma questão essencial ainda por cima numa fase de crise. Não tenhamos ilusões pois não vamos resolver muitos problemas sociais se não potenciarmos também o emprego para a população de Sintra, que não deve ser feito apenas à custa de Lisboa e da deslocação para Lisboa.

Já existem mais nomes para a lista do PS?

Tenho muito gosto em ter o doutor Domingos Quintas na lista, que é uma pessoa de reconhecida competência e de experiência dificilmente igualável no conhecimento dos problemas de Sintra e na condução do próprio funcionamento da câmara e tem sido um grande apoio para mim exactamente no sentido de dar a conhecer muitos ângulos do funcionamento e dos problemas de Sintra que me escapavam. Estou a fazer contactos com vista a lá mais para diante apresentar uma lista que incuta a esperança aos sintrenses de que tenhamos uma equipa coerente, séria e competente para governar Sintra ao nível da câmara municipal.

A nomeação de Ana Gomes não foi consensual no início, com membros do secretariado a afirmar que foi uma decisão nacional do PS. Como decorreu este processo?

Fui desafiada para me candidatar a Sintra pelo PS pelo próprio secretário-geral José Sócrates. Entendi logo que, pelo apoio da direcção nacional do partido, era essencial ter também o PS a nível local comigo. Obviamente que nunca encabeçaria uma candidatura sem ter o PS unido em torno dessa candidatura. Tive o gosto de ser endossada pela estrutura concelhia do PS no passado dia 26 de Março. Até me surpreendeu por vicissitudes diversas, inclusivamente pelo facto de eu ter antes disputado, embora de forma apressada, do meu ponto de vista, a liderança concelhia do PS. Tive uma demonstração de grande unidade do partido à ideia da minha candidatura, portanto penso que tenho todas as condições para de facto me lançar neste desafio.
Por: Joaquim Reis/Correio da Cidade